O encerramento da cooperação norte-americana, anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, deixa em suspenso a situação de milhões de meninas e meninos.
De acordo com a organização Save the Children, uma em cada onze crianças no mundo necessita de assistência humanitária vital. Entretanto, os cortes e bloqueios à ajuda internacional estão a aumentar, incluindo o encerramento iminente de programas financiados pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Esta situação está a pôr em risco a vida de milhões de crianças em todo o mundo que dependem desta ajuda para fazer face às condições precárias em que vivem, seja devido a guerra, fome, pobreza, alterações climáticas, doenças, entre outras.
A redução drástica do financiamento obrigou muitas organizações humanitárias a suspender programas essenciais de alimentação, saúde e educação, deixando as crianças extremamente vulneráveis.
Segundo dados recentes, quase duas centenas de programas de organizações como a Save the Children foram afetados, tendo de ser cancelados total ou parcialmente. E não se trata apenas da redução de apoios; as novas políticas impedem o acesso aos fornecimentos médicos, alimentos e materiais educativos já existentes, que estão retidos nas fronteiras e nos armazéns há semanas.
Mais de 40 países em África, na Ásia, na América Latina, na Europa e no Médio Oriente foram afetados, com mais de 17 milhões de artigos de ajuda retidos nos armazéns, nos camiões e nos fornecedores. São mais de 14,5 milhões de dólares de ajuda que não podem ser entregues. Mais de 2 milhões de quilos de alimentos para crianças e famílias estão a ser retidos, incluindo em zonas onde foram declaradas condições de escassez alimentar.
O mesmo acontece com mais de 300 000 kits e material de higiene, água e saneamento, o que afeta os campos de refugiados com surtos perigosos de doenças como a cólera. Mais de 150 000 kits de material escolar, tais como manuais, não estão a ser entregues e os centros de recreio tiveram de fechar, perturbando a aprendizagem das crianças e negando-lhes um espaço de vida seguro. Não foi possível entregar treze milhões de kits de emergência médica para recém-nascidos e suas mães, colocando-os em risco de infeção, dor e desnutrição.
Agravamento da crise humanitária
O impacto da retirada dos fundos da USAID é particularmente alarmante em países que dependem fortemente da cooperação internacional para garantir a segurança alimentar e o acesso à saúde. A escassez de recursos está a resultar no encerramento de centros de saúde e nutrição que serviam milhares de crianças com desnutrição aguda.
A situação em Gaza é particularmente preocupante. Mais de 1,1 milhões de crianças enfrentam uma insegurança alimentar extrema. A falta de financiamento impediu a prestação de cuidados essenciais, o que resultou no encerramento de centros de cuidados materno-infantis e na interrupção de programas de alimentação para crianças em risco de morrer à fome.
Na Somália, outro país diretamente afetado por estes cortes, cerca de 4,4 milhões de pessoas enfrentam uma grave crise alimentar. A organização Save the Children foi obrigada a encerrar mais de 120 centros de saúde e nutrição, deixando mais de 250.000 pessoas, na sua maioria crianças, sem cuidados.
Na mesma linha, no Afeganistão, as clínicas médicas apoiadas por ONG internacionais têm sido a única fonte de cuidados de saúde para comunidades inteiras. No entanto, a falta de financiamento levou ao encerramento de numerosos centros, com o risco de muitos outros deixarem de funcionar nas próximas semanas.
A posição das organizações
Perante este cenário sombrio, flutuante e incerto, várias ONG optaram por não emitir declarações sobre a questão. Estão a concentrar os seus esforços na continuação do seu trabalho para enfrentar e, de alguma forma, resolver os problemas humanitários que mais afligem as comunidades internacionais em risco.
Uma dessas organizações é a Unicef que, sem fornecer informações sobre o número de crianças e adolescentes que serve afetados pelo corte da USAID, alertou, há alguns dias, que “os cortes de financiamento anunciados e planeados limitarão a capacidade da UNICEF de chegar a milhões de crianças em extrema necessidade”.
No entanto, a mensagem das agências que se pronunciaram é clara: os cortes na ajuda humanitária internacional estão a ter consequências devastadoras, especialmente para as crianças, e devem ser urgentemente reconsiderados.
Apelo à ação
A Save the Children apelou aos líderes mundiais para que dêem prioridade ao financiamento humanitário e protejam as crianças mais vulneráveis. A organização apela também à sociedade civil para que continue a fazer doações e a apoiar o direito das crianças à sobrevivência, à proteção, ao desenvolvimento e à participação. Para a organização, investir nas crianças de hoje é a chave para garantir um futuro mais estável e seguro para as gerações vindouras.
Do mesmo modo, a UNICEF, numa declaração emitida em nome de Catherine Russell, a sua diretora executiva, “implora a todos os doadores que continuem a financiar programas de ajuda essenciais para as crianças do mundo”.
Acabar com a pobreza, fome zero, saúde e bem-estar, água potável e saneamento, cidades e comunidades sustentáveis são alguns dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030, assinados no Pacto Global da ONU, que estão a ser gravemente violados com o corte na ajuda humanitária internacional. Espera-se que os signatários do pacto tomem uma posição sobre esta questão e ativem protocolos de ação que tragam soluções eficazes.
Embora seja verdade que o encerramento da USAID e a redução do financiamento da ajuda colocaram uma pressão sobre a capacidade de resposta humanitária em todo o mundo, esta pode ser uma oportunidade para a comunidade internacional estar à altura do desafio de redefinir o seu compromisso para com os mais vulneráveis, uma vez que milhões de crianças sofrem as consequências destas decisões. O futuro das crianças está em jogo.